Diálogos de Prosperidade
07 de novembro, 2026
Verificar não é desconfiar!
Em muitas famílias empresárias, a palavra “verificar” soa como ofensa. Se o diretor-presidente é o filho que cresceu dentro da empresa, ou o profissional que está lá há vinte anos, pedir uma checagem independente parece sinal de desconfiança. O raciocínio é compreensível: a confiança é um valor de família e a empresa foi construída sobre ela.
Mas verificar e desconfiar são coisas diferentes. Desconfiar é uma atitude em relação a uma pessoa. Verificar é um processo da organização, que vale para todos, o tempo todo, independentemente de quem ocupa o cargo. Um piloto experiente também percorre o checklist antes de cada decolagem e ninguém enxerga nisso uma ofensa à sua competência.
Há ainda uma razão ligada ao funcionamento da mente. Desde o experimento clássico do psicólogo Peter Wason, em 1960, sabemos que as pessoas tendem a testar suas hipóteses procurando exemplos que as confirmam, e não os que as contrariam. Chamamos isso de viés de confirmação. Quando temos uma boa imagem de alguém, cada resultado positivo reforça essa imagem e os sinais em contrário passam despercebidos ou viram “exceção”. Não é falha de caráter. É economia cognitiva. Por isso, a verificação precisa estar no desenho da estrutura e não depender de cada conselheiro se lembrar de duvidar.
É também para isso que existe o princípio da prestação de contas, um dos cinco princípios do Código do IBGC. O código orienta o conselho a criar formas de monitorar de maneira permanente as decisões e as ações da organização. Na prática, três mecanismos fazem isso funcionar:
1. Auditoria independente das demonstrações financeiras, com canal direto com o conselho e não apenas com a diretoria que está sendo auditada.
2. Auditoria interna e gestão de riscos com acesso ao conselho, para que os problemas cheguem a quem decide sem passar por filtros.
3. Direito de consultar especialistas externos quando o tema exige um conhecimento que a mesa não tem.
Nenhum deles pressupõe que alguém esteja errando. Todos pressupõem que qualquer pessoa, por melhor que seja, pode errar sem perceber.
Para o dono da empresa, o ganho é concreto: problemas descobertos cedo custam menos e a credibilidade diante de bancos, sócios e herdeiros aumenta quando os números não dependem apenas da palavra de quem os produz.
Na sexta-feira, vamos ver o que acontece quando a verificação só chega de fora.
Quem verifica não ofende quem confia; protege a confiança de que todos dependem.
Por Ronaldo Behrens
Sócio | ABC Prosperity| PhD. | Esp. Neurociência do Comportamento.
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