Desempenho
Empresas maduras medem desempenho, mas quase nenhuma mede aquilo que realmente produz o desempenho.

Leandro Romani de Oliveira
Médico | Psicobiologia & Metabolismo — exames “normais” não significam saúde metabólica. CRM/SP 117.159
Um terço da capacidade produtiva das equipes desaparece todo dia — sem gerar um único atestado, sem acionar nenhum indicador de RH, sem aparecer em nenhum relatório.
O Censo de Saúde Mental da Virtude, com mais de 100 mil respondentes em 2025, encontrou índice médio de 31% de presenteísmo nas empresas brasileiras.
O IBEF-SP estima perda de mais de R$ 200 bilhões por ano com colaboradores presentes, mas operando abaixo da própria capacidade.
Toda empresa de alta performance mede o que importa: NPS, OKR, engajamento, turnover, produtividade por equipe… e os dashboards estão mais sofisticados do que nunca.
E ainda assim, uma quantidade relevante de colaboradores continua invisível porque ninguém está medindo o que gera os números mostrados no dashboard.
O que produz desempenho
Por trás da capacidade de sustentar foco, tomar decisões sob pressão e manter ritmo ao longo do dia, há uma base fisiológica que raramente é avaliada de forma integrada nas empresas.
A capacidade em cada célula do organismo de produzir energia suficiente para sustentar as funções físicas e cognitivas que a empresa exige do colaborador.
É tentador imaginar que os 3 eixos que regulam essa energia funcionem de maneira independente, mas a realidade é bem diferente pois eles formam uma rede fisiológica integrada.
Essa capacidade depende da integração entre três grandes eixos fisiológicos:
• o eixo do cortisol, responsável pela adaptação ao estresse e ao ritmo biológico
• o eixo tireoidiano, que amplia a capacidade de produção de energia celular
• e a sinalização da insulina, que garante o fornecimento de combustível para os tecidos.
Juntos, eles formam uma rede integrada de regulação energética, que podemos chamar de Tríade Energética.
Enquanto um sistema compensa o outro, o colaborador continua trabalhando.
O problema começa quando essa compensação deixa de ser suficiente. Empresas administram pessoas. Pessoas administram energia. Energia é um fenômeno biológico antes de ser um fenômeno comportamental.

O que cada eixo regula e como falha em silêncio
Cortisol
O cortisol não é apenas o hormônio do estresse, conforme detalhei na CMO#02. Ele organiza a disponibilidade energética do organismo ao longo do dia e cria as condições para que a produção de energia acompanhe as demandas fisiológicas.
O padrão de disfunção mais comum nas pessoas não é cortisol cronicamente alto, mas sim um ritmo circadiano achatado:
• um pico matinal insuficiente,
• uma queda exagerada após o almoço
• um cortisol elevado à noite
Esse é um clássico padrão wired but tired: o colaborador chega em casa incapaz de desacelerar, mas amanhece sem energia para começar.
No dashboard de RH isso pode aparecer como baixo engajamento matinal, reuniões que rendem menos do que deveriam e irritabilidade sem causa aparente.
Tireoide
Cada célula do organismo tem receptores para hormônio tireoidiano e o T3 é o hormônio tireoidiano metabolicamente ativo, que aumenta a capacidade da célula produzir energia por meio de diferentes mecanismos nas mitocôndrias, que são as usinas de energia das células.
Ainda que ele esteja no limite inferior da faixa de referência, é possível que o TSH, T4 Total e T3 Total estejam completamente normais.
Pesquisa da Universidade de Aberdeen de 2024 documentou que disfunção tireoidiana não gerenciada é compatível com redução de eficiência, aumento de absenteísmo e comprometimento cognitivo, mesmo na ausência de sintomas evidentes o suficiente para gerar um diagnóstico formal. No trabalho pode aparecer como lentidão cognitiva, dificuldade de concentração e fadiga que não cede com descanso.
Insulina
O cérebro é o órgão com maior demanda de glicose do organismo.
Quando a insulina não sinaliza com eficiência, a energia disponível para tomada de decisão, memória e regulação emocional pode ser comprometida, antes de qualquer diagnóstico formal.
Esse comprometimento pode acontecer anos antes de qualquer exame de sangue ficar fora da “faixa de normalidade”.
Alguns sinais desta alteração podem ser:
• oscilação de foco ao longo do dia
• dificuldade para sustentar atenção em tarefas longas
• queda de performance após refeições.
Cerca de 30 milhões de brasileiros estão classificados como pré-diabéticos, pela Sociedade Brasileira de Diabetes, e a maioria nem imagina, mesmo já sentindo esses efeitos no trabalho.

A pergunta que o ASO não faz
O exame periódico costuma perguntar: "está dentro da faixa de referência?"
É uma questão necessária, mas insuficiente para quem deseja compreender capacidade funcional.
Quando o objetivo muda, a pergunta também muda:
• TSH, T4 total e T3 total dentro da “faixa de normalidade” não significa tireoide funcionando no ponto ótimo, e sim ausência de doença estabelecida.
• Cortisol em uma coleta isolada não mapeia o ritmo circadiano.
• Glicemia em jejum não revela a resistência insulínica que já pode estar comprometendo a performance cerebral.
O exame ocupacional foi desenhado para identificar doença e aptidão ao trabalho, não para mapear a energia disponível de quem ainda não adoeceu, mas que já não está entregando o que poderia.
É exatamente nessa zona entre "sem doença estabelecida" e "funcionando abaixo da própria capacidade”, que reside a maior parte do presenteísmo que os dashboards não mapeiam.

O custo do que não é medido
Quando o quadro avança e se transforma em afastamento, parte deste custo sai do orçamento da empresa e vai para o setor público.
O INSS concedeu 546.254 benefícios por incapacidade relacionados a transtornos mentais e comportamentais em 2025, um recorde histórico, 15,6% a mais que 2024.
Mas o maior custo ainda é invisível, o presenteísmo.
O colaborador que está na reunião, mas não tem a capacidade funcional para estar presente de verdade.
A próxima vantagem competitiva, em relação a capital humano, talvez não ocorra com o foco nos colaboradores doentes, mas sim em intervenções de saúde em quem já deixou de produzir a energia suficiente para sustentar o desempenho que a função exige.
Alta performance começa pela gestão do seu metabolismo.
Se esse conteúdo fez sentido, assine a Chief Metabolic Officer e encaminhe para outros gestores que também entendem que a saúde corporativa pode impactar diretamente os resultados das empresas.
Dr. Leandro R. Oliveira
Fontes: Censo de Saúde Mental Virtude 2025 • IBEF-SP • INSS — Dados de benefícios por incapacidade 2025 • Montagna & Zangelidis, University of Aberdeen (2024) • Sociedade Brasileira de Diabetes • McKinsey Health Institute (2025)
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