E-mail: Nosso Conselho não serviu de nada na hora que mais precisamos
25 de setembro, 2026

Ronaldo Behrens
Sócio | ABC Prosperity| PhD. | Esp. Neurociência do Comportamento.
Recebi, recentemente, uma mensagem como esta:
De: Patrícia Assunto: Nosso conselho não serviu de nada na hora que mais precisamos!
Minha família criou um conselho há três anos, com muito orgulho. Trouxemos dois conselheiros externos, com bastante experiência em outras empresas familiares e nos reuníamos a cada trimestre para discutir os rumos do negócio.
O problema apareceu neste ano, quando meu irmão, que é o diretor-presidente, quis aprovar um investimento grande numa área nova, fora do nosso negócio principal. Os conselheiros discordaram abertamente, apresentaram números, alertaram sobre os riscos. Meu irmão ouviu tudo com atenção e, ainda assim, seguiu com a decisão do jeito que já tinha planejado.
Fiquei sem entender: para que serve um conselho, se ele pode simplesmente ser ignorado quando a decisão realmente importa? Isso é normal ou fizemos algo errado ao montar essa estrutura?"
Patrícia, o que você descreve não é um erro de execução, mas sim uma confusão bastante comum sobre o que, de fato, foi construído. Pelo que você relata, sua família criou um conselho consultivo, não um conselho de administração, com caráter deliberativo. E a diferença entre os dois é exatamente o que você viveu na prática: um conselho consultivo pode discordar, alertar, apresentar números contrários, mas não tem poder formal de impedir a decisão. Quem decide continua sendo quem sempre decidiu.
Isso não significa que o conselho de vocês não teve valor nenhum. Ele trouxe visibilidade sobre os riscos, criou um registro formal de que a decisão foi tomada contra recomendação técnica explícita, e isso importa, inclusive para decisões futuras sobre quem deveria ter mais ou menos autonomia dentro da empresa. Mas, se o objetivo da família era ter um órgão capaz de impedir decisões de alto risco antes que fossem executadas, o formato escolhido não entrega isso e provavelmente nunca entregaria, porque não foi desenhado para essa função.
A pergunta que vale fazer agora não é "fizemos algo errado ao montar essa estrutura", porque, para o que vocês achavam que estavam montando, provavelmente fizeram certo. A pergunta é: o que a família realmente precisa daqui para frente: mais uma instância que aconselha ou uma instância que tem poder real de barrar decisões como essa antes que se tornem fato consumado?
Se a resposta for a segunda, o caminho é formalizar o conselho como administrativo, o que normalmente exige alteração no contrato social, definição clara de quais tipos de decisão passam obrigatoriamente pela aprovação do conselho e um processo real de governança, não apenas reuniões trimestrais de troca de ideias. É um passo mais formal e mais trabalhoso, além de mais caro, do que o que vocês têm hoje, mas é o único caminho que realmente resolveria o problema que você descreveu.
Um ponto adicional vale sua atenção: antes de avançar para um modelo deliberativo, é importante que a família, incluindo seu irmão, esteja genuinamente de acordo com essa mudança. Formalizar poder de veto sem o real comprometimento de quem hoje decide sozinho tende a gerar um problema diferente, mas igualmente sério: decisões que passam a ser tomadas informalmente antes de chegar ao conselho, exatamente para escapar do controle que a família formalmente criou.
Por isso, antes de qualquer alteração formal, vale uma conversa aberta com seu irmão sobre o episódio recente, buscando entender se ele reconhece, olhando para trás, que talvez devesse ter dado mais peso ao alerta dos conselheiros. Se essa reflexão vier dele mesmo, a transição para um modelo com poder deliberativo real tende a ser recebida como proteção mútua, e não como desconfiança imposta de fora.
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Disclaimer: o caso descrito acima é fictício e foi criado a partir de padrões recorrentes da minha experiência profissional com famílias empresárias. Nomes, idades, setores e situações foram inteiramente inventados para fins ilustrativos. A confidencialidade de clientes e casos reais é, para mim, um princípio inegociável.
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